Entre as mais inclinadas de SP, Rua Paris desafia pedestres e expõe barreiras urbanas
O bairro de Perdizes é um dos bairros com mais ladeiras da Capital. Espigão da paulista Quem sobe a Rua Paris, em Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo, enfre...
O bairro de Perdizes é um dos bairros com mais ladeiras da Capital. Espigão da paulista Quem sobe a Rua Paris, em Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo, enfrenta mais do que uma ladeira íngreme. A via expõe, de forma direta, um problema estrutural da cidade: a dificuldade de garantir acessibilidade em áreas com relevo acidentado. Em um dos trechos, a inclinação ultrapassa 20%, com cerca de 20 metros de desnível em apenas 100 metros de percurso. Na prática, é como subir um prédio de 7 a 8 andares em uma distância curta. De acordo com a norma técnica brasileira de acessibilidade, rampas em rotas acessíveis devem ter inclinação máxima de 8,33% . A Rua Paris, com mais de 20% de inclinação em alguns trechos, ultrapassa em mais do que o dobro o limite considerado adequado para circulação segura de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A norma também estabelece que trajetos acessíveis devem garantir autonomia, segurança e conforto para todos os usuários, o que, na prática, se torna inviável em inclinações tão acentuadas. Rua Paris (Perdizes) Apresenta uma inclinação de 20% E 'um exemplo clássico do relevo acidentado do espigão da paulista. Reprodução GeoSampa2022 LEIA TAMBÉM: Por que a cidade de SP tem tantas ladeiras? Perdizes, na Zona Oeste, ajuda a explicar relevo acidentado 🏃Impacto direto no dia a dia Para cadeirantes, idosos ou pessoas com mobilidade reduzida, a subida se torna praticamente impossível sem ajuda. Mesmo para pedestres sem limitações, o esforço é elevado e contínuo. Pedestre subindo trecho com quase 20% de inclinação na Rua Paris, em Perdizes Pedro Bairon/g1 O consultor em acessibilidade, inclusão e turismo Ricardo Shimosakai, que é cadeirante, analisou imagens da via e destacou que a calçada, na prática, não serve ao pedestre. "Pela calçada em si, é impossível. Não só pela inclinação, porque as calçadas são formadas onde existem degraus. Então, a calçada é uma imensa escadaria. Eu acredito que conseguiria descer [pela via], agora subir, de forma alguma", afirma. Segundo ele, esse tipo de relevo impacta a funcionalidade da via. "As calçadas são um dos elementos mais básicos para a questão da acessibilidade e em relação também à mobilidade. Todo mundo usa calçada. Antes de ter um lugar acessível, você precisa que esse deslocamento seja acessível também", afirma Shimosakai. Além da inclinação, a própria lógica da norma indica que trajetos acessíveis devem contar com soluções como rampas suaves, áreas de descanso e continuidade do percurso, condições difíceis de implementar em ruas que acompanham diretamente o relevo natural. No caso da Rua Paris, a inclinação não é resultado de projeto urbano, mas da geografia. Considerada a rua mais inclinada da região central de São Paulo, a via acompanha as encostas do Espigão Central de São Paulo, formação que estrutura o relevo da cidade e cria uma sequência de rampas naturais. topografia do Espigão Central de São Paulo: Perdizes. Reprodução: GeoSampa2022 "Essas grandes ladeiras são evidências de processos erosivos que conseguiram esculpir, muito fundamentalmente por causa da água, essas bordas laterais desse grande planalto que sobra", explica o geógrafo Tiago Fuoco. A via é um exemplo de barreira urbana: um ponto em que as condições impedem que o deslocamento seja feito de forma autônoma por todos os pedestres. Nesses casos, a circulação depende de ajuda ou de rotas alternativas. O que diz a prefeitura? Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que, conforme a Lei Municipal nº 15.442/2011, a responsabilidade pela construção, adequação e manutenção das calçadas é do proprietário do imóvel. A prefeitura ainda completa lembrando que o decreto nº 59.671 determina que a inclinação longitudinal das calçadas deve acompanhar a topografia da via. *Sob supervisão de Cíntia Acayaba e Paula Lago Trecho da Rua Paris (Perdizes) com mais de 20% de inclinação, o mais inclinado da rua Pedro Bairon/g1